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Giri: A arte da gratidão

por Angélica Djenane Philippe

Sensei Eduardo Mendes Ribeiro Correa1

“A gratidão é uma oração sincera, um sentimento profundo de reverência pelo caminho e pelo modo de vida do Aikidô. Quando a ferramenta se desgastava ela não era simplesmente jogada fora, mas formalmente recolhida numa cerimônia especial longo e leal serviço.” (Morihei Ueshiba)

A pós-modernidade teve, como uma de suas características marcantes, na esfera comportamental, o estímulo à competitividade e ao individualismo. Os resultados não nos fizeram necessariamente uma sociedade mais feliz e realizada. Em contraposição, novos paradigmas nos convidam a uma revisão de valores e nos levam a perceber que estamos inseridos em uma teia de relações, onde cada ação pontual pode gerar impactos em uma escala maior, cujos limites não podemos precisar.

Com raízes em teorias científicas da química, física ou biologia, novas referências contribuem para a ruptura do paradigma reducionista, construindo as bases para a compreensão da complexidade dos fenômenos. Passamos assim a compreender a “teia” que interconecta todos os seres e os elementos do planeta, verificando que pequenos fatos, aparentemente irrelevantes, podem ter resultados de significativas conseqüências.

Vivemos em um mundo de relações, onde a forma como interagimos com nossos pares passa a ser uma variável significativa para o sucesso ou insucesso das “organizações”, sejam elas associações, família, empresas. A partir do momento em que nos percebemos como parte de um todo, verificamos que a forma como consolidamos nossas relações é substancialmente importante para o êxito de nossos projetos e empreendimentos. Neste sentido, acreditamos que um valor é fundamentalmente importante: o respeito, sobretudo aquele galgado na gratidão.

Neste sentido destacamos um termo de origem nipônica que, na nossa compreensão, representa eficazmente este conceito: “GIRI” equivocadamente apropriado para promover violências e autoritarismos3 ao seu sentido mais nobre, onde é compreendido como “gratidão”, ou “respeito”, ou, melhor ainda, “o respeito galgado na gratidão”.

Falamos aqui na consideração e sentimento de gratidão que devemos ter por todos aqueles que fazem algo em nosso benefício, muitas vezes algo que nós mesmos não poderíamos fazer: da pessoa que zelosamente prepara o café, a que mantém limpos nossos cômodos, aos nossos chefes e líderes que nos mostraram caminhos, assumiram responsabilidades.

Acreditamos que é importante dedicarmos o “GIRI”, sobretudo, àqueles que nos ensinaram algo, muitas vezes colocando ao nosso dispor, de forma suave, conhecimentos que exigiram de si dedicação e sacrifico para serem obtidos. Quem nos doa um de seus bens mais preciosos: o tempo, a dedicação e o saber, nos conduzem a um infinito compromisso de gratidão.

Não são raras as vezes que os vícios humanos do egoísmo e do orgulho nos ofuscam a percepção do quanto devemos aos que nos cercam, e, sobretudo, aos nossos orientadores, obstaculizando, pela exacerbação do individualismo, nossa compreensão do “prazer de servir”. Muitas vezes, a obediência e o respeito são percebidos de forma depreciativa, traduzidos como subserviência e como uma fraqueza de caráter em nossa sociedade competitiva.

Contrariamente, os samurais, a classe guerreira do Japão feudal, tinham este conceito como base de suas atividades. Em seu sentido etimológico, a própria expressão relaciona-se ao ato de servir, e ainda assim os samurais são associados à imagem de coragem e autoridade.

Pensamos que servir com amor e respeito é uma forma de honrar àqueles a quem somos gratos, estabelecendo relações harmoniosas com todas as pessoas. Ao contrário de representar sacrifício e exploração, o bem servir nos conduz ao sentimento de realização, de cumprimento de nossa missão.

Nosso sensei nos ensina que devemos lembrar com carinho e gratidão do legado de nosso shihan, tendo por ele o mesmo sentimento que temos por um ancestral. Se nossos mestres são como pais no AIKIDÔ, os mestres de nossos mestres são nossos avós. Este respeito é demonstrado pela devoção ao AIKIDÔ, pelo amor na sua prática, e pela busca de União entre todos os federados.

Se nossas relações, sejam elas hierárquicas ou horizontais, forem galgadas sobre os conceitos de “GIRI” teremos dojos mais saudáveis, sustentados pelo respeito e gratidão mútuos, permitindo que o sentimento de parceria seja potencializado, e, por decorrência, obteremos a formação de equipes com melhores desempenhos, mais realizadas em suas atividades e com a harmonia que tanto buscamos desenvolver em nossa Arte.

¹ Responsável técnico da KOBUKAN.
² Justiça, obrigação. in Dicionário Japonês-Português São Paulo: Ed. Rideel)
³ http://japanese.about.com/od/japanesecultur1/a/071497.htm (30/jun/2011)